O VELHO MÚSICO IV

 

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Geralmente quando voltamos ao passado de forma saudosa, profunda, é fundamental conhecer as pessoas que vivenciaram aquela época de encantamento, cujas fisionomias agora diferentes daquelas guardadas em nossa memória pela inclemência do tempo, continuam jovens e risonhas em nossos corações como se o tempo não tivesse passado...
Lembranças, imagens e sons musicais da Banda Lyra Antoniana contidas no fundo da mente, sons inesquecíveis, imorredouros, guardados nas profundezas da alma!
Agora feche os olhos; você estará pertinho do coreto, sentado num banco vendo as moças e os rapazes fazendo a volta no jardim.
Os rapazes pela direita e as moças pela esquerda, num incansável círculo cheio de harmonia e encanto, onde a cada volta o coração batia mais forte toda vez que se passava ao lado da mulher amada, tudo isso embalado e envolvido pela mágica da música que soava do coreto; era a Banda Lyra Antoniana que tudo e a todos encantava.
Não distante dali, um senhor idoso, acamado e impossibilitado de levantar-se, com os olhos fechados mas com um leve sorriso nos lábios num misto de saudade e alegria, no silêncio do seu quarto escuta ao longe os acordes da Banda a tocar, levados pela brisa suave que invade seu quarto na penumbra; sons que chegam até ele como que impregnados de perfume, sons que atravessam ruas, vielas, copas de árvores floridas, campos e jardins da Conchas antiga, levados com o suave frescor da noite; sons que lhe devolvem por breves momentos a juventude agora distante, mas que ele revive intensamente naqueles mágicos instantes. É o milagre da Banda à tocar, a mesma que agora embala corações no coreto lá da praça.
Ah... Aqueles sons que saem do bombardino, do baixo-tubo... Instrumentos “encantados” que nas mãos dos inesquecíveis irmãos italianos chegava a “enfeitiçar”; parecia até vê-los com seus grossos dedos tirando notas como ninguém, inimitáveis...
“ Due Ângelo a toccare, toccare il cuori”
Oh... Deus, que saudade!
É a música que o traz de volta à juventude e não consegue segurar uma lágrima que furtivamente lhe rola pela face, que desce lentamente pelas barbas agora embranquecidas pela inclemência do tempo.
No silêncio do seu quarto, apenas escutando ao longe a Banda a tocar, recorda-se com clareza de que quando ainda garotinho, brincava de reger a Banda para “ajudar” o maestro.
Seus pais sorriam para ele.
Lembra-se daqueles sorrisos cheios de amor e carinho; parece até vê-los sentados no banco do jardim ao lado do coreto como que a incentivá-lo.
Cresceu, tornou-se músico, participou da Banda, realizou seu sonho maravilhoso!
E tocava... Tocava lindamente, sonhava, vivia!
O tempo passou rápido como o vento, como passará também para os jovens lá da praça, mas as recordações guardadas no fundo do seu coração e na alma não passarão jamais, pois estão ligadas inexoravelmente à Banda musical, à Banda que tanto orgulho lhe deu e que tanto ama.
É domingo, é noitinha, o vento é suave, as pessoas começam a chegar na praça; sorrisos, cumprimentos, abraços... Talvez.
Sentam-se nos bancos ao lado do coreto, lá, os músicos orgulhosos em seus uniformes afinam seus instrumentos.
Crianças correm, brincam e pulam na maior alegria.
São dezenas delas. Seus pais, num aceno, chamam-nos, terão que parar de brincar porque a Banda vai começar a tocar, terão que fazer silêncio.
Um menino com roupinha de marinheiro senta-se no joelho do pai, sua irmã com vestidinho cor-de-rosa, fita azul nos cabelos, senta-se no colo da mãe que a repreende por estar com o dedo na boca, e o menor dos três irmãos, um loirinho de cabelos encaracolados fica com a carinhosa vovó.
Com o dedo indicador sobre os lábios, alguns pais fazem o sinal característico de “silêncio”, e sem o saber, estão formando o caráter e o respeito aos seus filhos.
Todos se calam.
Silêncio!
O espetáculo está para começar.
O maestro nesse momento, centro das atenções, ergue sua batuta e com a outra mão levantada para iniciar, num sinal característico de “atenção”, transforma-se num gigante, num gigante de sonhos, e lentamente começa a reger; a Banda responde enchendo o ar de sons, amor e fantasias.
Lá, ao longe, só e numa alegria triste, o velho músico entregue às recordações, com um leve sorriso escuta sua amada Banda, conhece bem aquela música, “Branca”, quantas vezes a tocou e escuta-a até o fim; lembra-se do distante dia do padroeiro da cidade que se engalanava para a festa e para a qual treinara a música “Dor de Mãe” que deveria tocar acompanhando a procissão, mas Deus programara outra coisa para esse dia, e como prêmio, decidiu “levar” para junto de si uma idosa, nobre senhora que consagrara sua vida às causas nobres; lembra-se perfeitamente, foi tristemente linda a escolha de Deus; na igreja, a idosa senhora recebeu a hóstia, voltou ao seu banco, encostou a cabeça no ombro da sua amiga e, diante do altar cheio de flores, lindamente enfeitado com amor e carinho pela sua própria filha, faleceu!
A Banda agora tocaria a música “Dolorosa” acompanhando a senhora até sua última morada.
Não houve comemoração naquele dia.
Agora a Banda parou de tocar.
No silêncio quase absoluto do seu quarto, escuta apenas as batidas do seu velho relógio.
Da antiga e enorme sala, de piso de madeira vêm àquelas batidas, tóc... tóc ...tóc ...tóc ...tóc ...tóc ..., e o velho absorto em seus pensamentos continua com os olhos fechados na penumbra reinante.
As recordações vêm com intensidade, e ele, feliz sorri lembrando o passado como quem zomba do tempo, da velhice...
Agora nessa pausa da Banda, em seus pensamentos ele está lá no coreto passando o lenço branco no bocal do seu instrumento; seus companheiros reviram as páginas das partituras para escolher a próxima música.
Rápidas brincadeiras entre eles, alguns gracejos, risadinhas disfarçadas quase imperceptíveis.
Em volta do coreto as pessoas aproveitam esse intervalo para conversar, pois quando o céu se abrir novamente com os sons da Banda, todos silenciarão para escutar o velho tocar com seus companheiros, e a Banda, só a Banda reinará absoluta levando seus acordes lá para o infinito onde as estrelas brincam e o Sol descansa, e se perdem nos confins do Universo.
Leva lá para cima sonhos de amores proibidos, amores puros, amores inocentes, infantis, fantasias...
A música não os distingue porque é o amor que impera absoluto, que reina e, todos, todos eles sobem aos céus enlevados pela magia da música da Banda Lyra Antoniana; pela música do velho!
Pronto.
A música foi escolhida, ajeita a farda orgulhosamente, aguarda o sinal do maestro, e começa a tocar.
Nessa hora o velho músico não mais está na cama, o velho músico está lá, no coreto, junto aos seus amigos, sob o olhar da mulher que ama, fazendo com que os casais se amem ainda mais enlevados pela música.
Na cama está apenas o que dele “sobrou”; um rosto marejado de lágrimas, algo que restou de um passado maravilhoso, inesquecível.
A noite vai adentrando, lá fora o vento chora com o velho, a música tem o poder de dar forma às suas emoções, agora ele já não agüenta mais a saudade que o sufoca. Chama sua mulher e pede que feche a janela do seu quarto; parece agora querer fugir às lembranças, está exaurido de corpo e alma!
Escuta os passos da mulher que se aproxima e ainda sem abrir os olhos, sente em seu rosto o beijo doce e suave da mulher que tanto o ama, em seguida escuta novamente o ranger do piso da velha sala; é sua mulher que se afasta.
A janela agora está fechada, sua saída para o mundo está fechada; seu mundo é a música, os sons da Banda vão ficando cada vez mais distantes, baixinhos, quase inaudíveis, e vão sumindo, sumindo...
O velho sorri suavemente; uma incrível sensação de paz invade todo seu corpo, e assim o velho adormece, adormece profundamente!
Vai-se a noite.
Amanhece.
É domingo, não é um domingo comum, é um domingo cheio de Luz.
Não! Não vá acordar o velho, ele não vai ouvir por mais que você o chame; não insista, não percebe?
O velho músico não vai acordar, ele está tocando linda a delicadamente como nunca tocou, está tocando com a alma, só com a alma... Para Deus.
Silêncio, ouça, parece à música “Saudades de Matão”, consegue ouvir?
Escuta querido velho, escuta...
Meu velho querido, não te entristeça, a Banda também não te esqueceu, ela te acompanhará até o fim, até dizer-lhe... Adeus!
Então, querido velho, serás feliz para sempre.
Sorria meu velho, são tuas as lembranças, é tua a Banda Lyra Antoniana, carrega-a contigo, carrega...
Neste domingo a sua amada e gloriosa Banda Lyra Antoniana irá tocar uma única vez, à tardezinha, e será para você, não sei se seus amigos tocarão afinadamente a música “Dolorosa”, perdoe-os, estão muito tristes e você, querido velho, não voltará com eles. Você vai tocar num lugar muito lindo, maravilhoso; estão te esperando lá.
É domingo, é noite; a carinhosa vovó está outra vez com seus netos ao lado do coreto aguardando a Banda começar a tocar, calmamente olha para o céu cheio de estrelas; conhece todas, estrela Dalva, as Três Marias, Cruzeiro do Sul, mas há estrela nova, brilhante, que ela nunca tinha visto antes.
Há uma nova estrela nos céus da amada Conchas.

 

 

 

Conchas/SP

Matias José Schneider

 

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