A estrada para Santa Terezinha

 

VOLTAR

 

- Vem Apolo, vem, sobe...

Assim eu convidava meu cachorro para entrar na velha Brasília quando voltava da cidade pela estrada de Santa Terezinha, lugarejo onde se localiza meu sítio.

Quando me aposentei saí de São Paulo e procurei ser feliz num pequeno sítio distante 13 quilômetros da cidade de Conchas.

Eu, minha mulher e um cão maravilhoso chamado Apolo, cor caramelo e pêlo batido.

Quando íamos à cidade ele ficava tomando conta do sítio. Dócil, olhar meigo, sempre nos aguardava no alto de um barranco ao lado do sítio num lugar estratégico de onde se vêem os contornos da estradinha que, às vezes, se perde entre as árvores que a margeiam.

Quando ouvia ao longe o ronco inconfundível do motor do carro, saía em disparada ao nosso encontro saltando de alegria pela estradinha poeirenta.

Parava o carro, abria a porta e dizia:

- Vem Apolo, vem, sobe...

Feliz, saltava para dentro, lambia-me e eu retribuía afagando-lhe a cabeça. Ele sabia que o amor era recíproco, sim, sabia.

Nas tardes calorentas saíamos pelas campinas, adentrávamos as matas, percorríamos riachos de água fria quase gelada que corria por entre árvores majestosas.

Bebíamos daquela água pura e às vezes ficávamos no mais absoluto silêncio somente ouvindo o som das árvores sob o vento.

Quando ouvíamos algo estranho, ele levantava as orelhas e olhava para mim como quem pergunta o que seria aquele barulho esquisito; parecia um gemido, um grito abafado ou seria ronco?

Eu percebendo sua indagação muda, mas muito clara, dizia:

- É bicho Apolo, é bicho bravo!

Ele ficava todo arrepiado e imóvel, coisa que eu achava muito engraçado.

Saíamos da mata e voltávamos pela estradinha brincando até chegar em casa.

Oh, Deus, como éramos felizes.

Mas, mal sabíamos que toda essa felicidade estava prestes a desaparecer; como nuvens negras a desgraça silenciosamente se avizinhava.

Adoeci terrivelmente. Fui levado para São Paulo e, lá entrei em coma – estava com câncer em estado adiantado. Fui operado e lá tive que ficar.

Nossas vidas se transformaram da felicidade plena para a dor e a tristeza.

No sítio ficou o Apolo.

Um sitiante lhe trazia comida uma vez por dia e ele ficava os dias e as noites sozinho.

A doença rapidamente me consumira, emagreci muito e meu corpo inclinara-se para frente, não tinha forças para ficar ereto; pálido, meus cabelos caíram ficando apenas montículos disformes e horríveis, estava irreconhecível e foi nessas condições que, cheio de saudades, pedi para voltar ao sítio.

Dois meses haviam se passado.

Ao entrarmos na estrada de Santa Terezinha já próximo ao sítio, o Apolo não veio ao nosso encontro como era seu costume, fiquei apreensivo, meu coração bateu forte, pois nunca deixara de pensar nele enquanto estive ausente.

Pedi que parassem na porteira e só eu desci do carro, queria fazer surpresa para o meu fiel e querido amigo Apolo.

Será que ele iria me reconhecer?

Acho que sim, pois eu o chamaria pelo nome e o afagaria como de costume.

Lentamente abri a porteira e fui caminhando em direção à sua casinha de madeira que ficava debaixo de um pé de ipê.

Débil, fragilizado pela doença que me abatera terrivelmente, cansei-me logo nos primeiros passos, por isso ajoelhei-me na grama e, a poucos metros de distância da sua casinha chamei-o pelo nome.

- Apolo, Apolo, Apolo...

De dentro da casinha, hesitante, surgiu uma imagem fantástica, deprimente, muito magro e com olhar turvo, mal parava em pé de fraqueza – um morto-vivo.

Olhou-me detidamente, em silêncio...

Não me reconheceu!

Meus olhos encheram-se de lágrimas e, ainda ajoelhado e mal conseguindo articular a palavra, insisti:

- Apolo, sou eu que voltei, vem cá amigão, vem...

Lentamente e cambaleando saiu da casinha e veio até mim. Como ainda estava ajoelhado, sua cabeça encostou-se a mim e apertei-a carinhosamente contra o peito à explodir de tristeza.

Reconheceu-me, e com uivos longos e abafados chorou em meu peito arfante; não tinha forças para latir...

Mordia-me suavemente os pulsos como quem quisesse dizer:

- Por que me abandonou? Por quê?

Sinceramente foi uma das maiores tristezas da minha vida. Marcou minha alma de forma indelével, para sempre! Aquela cena está gravada nas dobras da minha mente, lá no fundo, e a levarei para a eternidade.

No dia seguinte dei-lhe um banho e enxuguei-o com carinho. Andamos juntos por alguns minutos, pois nós dois estávamos enfraquecidos.

Ele continuava com olhar triste, muito triste.

No segundo dia, logo cedo fui levar leite quente com pão que ele tanto gostava.

Chamei-o ele não se mexeu, parecia estar dormindo.

Insisti.

- Apolo, Apolo, acorda...

Jamais atenderia ao meu chamado – estava morto.

Seus olhos semi-abertos estavam úmidos e pareciam me fitar.

Sob seu corpo estava uma camisa minha que ele puxara do varal, coisa que jamais fizera!

Começava o outono. No chão da mata, folhas de todos os tipos e cores aumentavam em mim a imensa mágoa.

Perto da casa, debaixo de uma árvore que sempre ficávamos cavei uma sepultura, tirei sua coleira e sepultei-o carinhosamente.

Sobre seu corpo coloquei a camisa que ele escolhera e, sobre eles, a terra molhada com minhas incontidas e silenciosas lágrimas.

Pendurei a coleira num galho daquela árvore e comecei a voltar para casa; após alguns passos voltei-me e olhei para aquele lado, vi a coleira que balançava suavemente sob o vento como se ele estivesse a acenar-me num triste adeus ou, talvez pedindo para que não o deixasse outra vez.

Soube depois que desde o dia que fui para São Paulo, ele ficava no barranco olhando para a estrada de Santa Terezinha uivando e chorando dias e noites à minha espera. Seus lamentos ecoavam por todo o vale, adentrava as matas, corria os campos emocionando a todos – ninguém conseguia tira-lo de lá.

Onze anos se passaram, e em todos eles quando chega o outono vou à mata recordar. Sento-me nos mesmos lugares que íamos e fico observando as folhas caírem sendo levadas lentamente pelas águas frias dos córregos; vão se despedindo das matas, das suas irmãs, as flores, vão descendo correnteza abaixo, cada vez mais distante ficam os cantos dos pássaros que viram nascer, algumas caem num redemoinho e ficam girando, girando, girando... Finalmente seguem, tristemente seguem como as outras...

Do meu quarto, através da janela, vejo a árvore cuja copa abriga seu túmulo, e silenciosamente, com a cabeça recostada no travesseiro, parece que o vejo a balançar o rabo olhando para mim, então falo baixinho:

- Aguarda amigo querido, aguarda...

Envelheci, sei que um dia terei que seguir as folhas do outono, mas não estarei só, e se um dia você vier conhecer a estrada para Santa Terezinha, pare o carro debaixo de uma árvore, desligue o motor, faça silêncio.

Ouça o soar do vendo nas copas das árvores, a música celestial que há quando o vendo sopra por entre os cipós, continue em silêncio, talvez ouça latidos, uivos abafados ou uma voz chamando ao longe, muito longe, Apolo... Apolo... Apolo. Vem... Vem...

Não se assuste, talvez sejamos nós, não se assuste, só há amor.

Se você vier à noitinha, estique seus braços com as palmas das mãos voltadas para o céu, e se caírem algumas gotículas sobre elas, talvez não sejam gotas de orvalho, mas sim, lágrimas sentidas revivendo um passado que foi tão feliz.

 

Conchas, 04/07/2008

Matias José Schneider

 

Controle: Poema15.htm